Arquivo para agosto, 2009

O Chile em sete histórias na tela

Posted in Uncategorized on agosto 27, 2009 by karolnews

Fernanda Brambilla, fernanda.brambilla@grupoestado.com.br

São sete noites e sete histórias diferentes na missão de provar que o cardápio cultural do Chile não se resume aos famosos vinhos. A partir de amanhã, o cinema Reserva Cultural recebe o Festival de Cinema Chileno em São Paulo, que trará sete longas escolhidos cuidadosamente da última safra do país.

“Santiago e São Paulo são cidades de comportamentos parecidos. Queremos mostrar aos paulistanos que o Chile também faz bom cinema”, apresenta o diretor comercial do ProChile, órgão do Ministério de Relações Exteriores do país, responsável pelo evento.

Na seleção, ganham destaque as comédias, que compõem metade da mostra. Na segunda-feira, abre a programação o drama de ficção 199 Recetas para Ser Feliz (199 Receitas para Ser Feliz), do diretor Andrés Waissbluth. No verão de Barcelona, um casal recebe a visita de uma jovem de Santiago, que transforma a vida dos dois. O marido é autor de um livro, que dá o nome ao filme, mas que não vende bem. O longa pede a reflexão: estamos nos esforçando o suficiente para tornarmos a vida mais feliz? Haverá mesmo tantas formas de encontrar a felicidade?

Na terça-feira, é a vez da ficção La Buena Vida, de Andrés Wood, ganhador do prêmio Goya, considerado o Oscar do cinema espanhol, em 2009. Com um humor peculiar, a trajetória de quatro personagens são costuradas: Edmundo é um cabeleireiro que sonha ter um carro, então, recorre a um empréstimo bancário; Teresa é uma psicóloga que tenta salvar a vida de pessoas desesperadas; Mario é um músico que planeja entrar para a orquestra filarmônica, mas só encontra emprego no exército; e Patrícia, para quem só sobreviver já parece o suficiente.

Alicia en el País, no domingo, acompanha a longa e maravilhosa travessia da menina Quechua, por 180 km, de Soniquera, na Bolívia, sua cidade natal, até San Pedro de Atacama, no norte do Chile, em busca de emprego.

Na noite seguinte, a atração é Tony Manero, drama de Pablo Larrain, premiado no Festival Internacional de Valdívia, que já compôs outras mostras por aqui. Em meio à ditadura militar de Pinochet, um homem mantém a obsessão de se tornar o famoso personagem interpretado por John Travolta no clássico da era disco Os Embalos de Sábado à Noite. Mas a fantasia de encarnar o ídolo o perturba – e ele acaba se tornando um assassino em série.

Na terça-feira, a comédia romântica El Regalo (O Presente) discute a vida na terceira idade a partir de Francisco, um aposentado que entra em crise com a viuvez. Seus amigos, preocupados, decidem levá-lo a um passeio. Para sua surpresa, ele reencontra Lucy, com quem se envolveu no passado, o que muda o panorama da viagem.

Duas comédias encerram a atração, nas suas duas últimas noites. Malta con Huevo (Cerveja Preta com Ovo) faz menção a um drinque muito popular no Chile para curar ressacas. Na ficção ‘dark-pop jovem’ do diretor Cristóbal Valderrama Blanco, dois amigos que decidem viver juntos passam por estranhas situações. Um deles, Vladimir, começa a acreditar que consegue viajar através do tempo depois de acordar, numa manhã, ao lado da noiva do amigo, sem saber o que poderia ter aprontado. Já Jorge é obsessivo por controle e está convencido de que consegue façanhas com a força da mente. Para provar sua aptidão, decide usar Vladimir em segredo como sua cobaia.

Por fim, El Rey de los Huevones (O Rei dos Tontos) encerra o festival, na quinta à noite, com a história de Anselmo, um homem correto num mundo injusto, que só se dá mal por se ater às regras. Trapaceado por todos a seu redor, o personagem passa a se perguntar se é preciso uma cota de maldade para ter uma vida mais tranquila.

Serviço

2º Festival de Cinema Chileno em São Paulo.
Reserva Cultural: Av. Paulista, 900, 3287-3529. De hoje até 03/09, às 21h30. Preço: R$ 15 (ingressos devem ser comprados com antecedência na bilheteria)

Fonte: JT Online

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Quatro filmes brasileiros estão no Festival de Montreal, que começa hoje

Posted in Uncategorized on agosto 27, 2009 by karolnews

O Festival de Cinema Mundial de Montreal inicia hoje sua 33ª edição, em que serão projetados 249 longas-metragens e 208 curtas de 78 países, um número recorde para o evento.

O Brasil terá quatro filmes exibidos no festival. Na seção Foco Cinema Mundial, será projetado “Entre Lençóis”, do colombiano Gustavo Rieto Roa e que tem Reynaldo Gianecchini e Paola Oliveira no elenco.

Já na categoria Documentários do Mundo serão exibidos “Garapa”, de José Padilha, “Versificando”, de Pedro Caldas, e “Utopia e Barbárie”, novo longa de Silvio Tendler.

O evento acontecerá entre hoje e 7 de setembro e terá 20 filmes disputando o prêmio principal, entre eles “Andrés No Quiere Dormir La Siesta” (Argentina), de Daniel Bustamante, “Weaving Girl” (China), de Quan An Wang, e “Je Suis Heurerux Que Ma Mère Soit Vivante” (França), dos irmãos Claude e Nathan Miller.

Os organizadores assinalaram que este ano o programa Competição Mundial de Obras Primas incluirá também 20 filmes.

“Graças ao novo meio digital apareceu uma nova geração, pronta para enfrentar os produtores estabelecidos”, afirmou a organização do festival em comunicado.

“A tecnologia digital agora permite uma nova flexibilidade, uma nova forma espontânea de fazer filmes que revolucionou a nova geração”, acrescentaram os organizadores do evento.

Outro dos 20 filmes incluídos na chamada Competição Mundial de Operas Primas é “The Childhood of Icarus”, do diretor Alexandre Iordachescu, último trabalho de Guillaume Depardieu, filho do ator francês Gérard Depardieu que morreu no ano passado.

Prêmio Jabuti terá finalistas divulgados nesta quinta

Posted in Uncategorized on agosto 20, 2009 by karolnews

Acontece nesta quinta-feira (20), a partir das 10h, a apuração dos finalistas da 51ª edição do Prêmio Jabuti, uma das mais prestigiosas láureas da literatura brasileira. Nesta fase, são selecionados 10 concorrentes para cada uma de suas 21 categorias, em cerimônia aberta ao público e à imprensa na sede da Câmara Brasileira do Livro, em São Paulo.

Como parte das comemorações do Ano da França no Brasil, foi criada, em caráter extraordinário, a categoria especial Melhor Tradução de Obra Literária Francês-Português. Dentre os autores finalistas sairão os vencedores dos prêmios principais, os de Melhor Livro de Ficção e de Não-Ficção, que receberão R$ 30 mil cada um.

Histórico

No ano passado, ocasião em que se comemorou o cinquentenário da premiação, foram contemplados os escritores Ignácio de Loyola Brandão, com a obra “O Menino que Vendia Palavras”, e Laurentino Gomes, com “1808”, respectivamente nas categorias de Melhor Livro de Ficção e Não-Ficção.

Fonte: Folha Online

20º Festival Internacional de Curtas de SP começa nesta sexta

Posted in Uncategorized on agosto 20, 2009 by karolnews

Na primeira edição, foram 60 filmes, alguns deles entregues em fitas VHS um tanto amassadas. Passados 20 anos, morto o VHS e reinante o formato digital, foram, entre brasileiros e estrangeiros, cerca de 2,4 mil inscritos. Os números atestam: os curtas-metragens vivem a era do excesso. E é nesse ambiente que o Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo completa 20 anos.

“O curta é o formato dos novos espaços de exibição, como internet e celular. Me arrisco a dizer que o curta tem um tempo que combina com o tempo das pessoas hoje”, diz Zita Carvalhosa, diretora do evento, o maior do gênero na América Latina.

O festival reunirá, em 11 salas, cerca de 400 títulos em sessões gratuitas. “Com tantos e novos acessos, e talvez excessos, o que faz a diferença é a escolha; é a maneira de mostrar esses filmes”, aposta Carvalhosa, que, para esta edição, criou o tema “escritas do cinema”, referindo-se não apenas à linguagem, mas também aos modos de recepção de um filme.

Em tempos de imagens a um clique, o festival propõe a experiência coletiva e conversas com os diretores. “Na internet, a audiência é muito maior. Só o trailer do meu filme teve 4 mil acessos. Mas, no festival, o envolvimento do público é outro”, diz Júlio Taubkin, que fez, com Pedro Arantes, “A Guerra de Arturo”. “Por outro lado, só a internet produz um sucesso como “Tapa na Pantera”.”

Se, hoje, a internet é a grande janela para os curtas, cabe lembrar que houve, em outros tempos, outros estímulos. Em contexto bem diferente, em meados dos anos 80, com a regulamentação da Lei do Curta, que obrigava as salas de cinema a exibir o formato, também houve uma explosão. Outro momento importante deu-se após o fim da Embrafilme, em 1990.

“Com a diminuição da produção de longas, os curtas viraram a principal forma de produção de quem estava chegando ao cinema. Toda uma geração se firmou no curta”, diz o realizador Francisco César Filho, referindo-se a nomes como Tata Amaral, Beto Brant, Laís Bodanzky e Jorge Furtado.

Os curtas, como se vê, estão sempre à espera de um “pretexto” para (re)existir. “Seu papel sempre foi e sempre será o da experimentação. No curta, é possível arriscar”, diz Carvalhosa. Para os espectadores que temem, eles próprios, arriscar, a produtora recomenda um teste. “Acho que é só entrar na sala que o pé atrás se desfaz. E tem aquela brincadeira: curta, quando é bom, é maravilhoso; quando é ruim, acaba rápido.”

Para os menos afeitos a aventuras, há, na seleção, nomes de ponta do cinema, como o tailandês Apichatpong Weerasethakul e o chinês Jia Zhang-ke, e vencedores dos principais prêmios mundiais, como o português “Arena”, ganhador da Palma de Ouro, em Cannes, e a animação “Por Favor, Diga Alguma Coisa”, co-produção entre Alemanha e Irlanda que levou o Urso de Ouro, em Berlim.

Fonte: Folha Online

Hippie Fest Embu das Artes

Posted in Uncategorized on agosto 15, 2009 by karolnews

Os 40 anos da Feira de Embu das Artes (31/1/1969) e os 40 anos do Festival

hippiefest

de Woodstock (15-17/8/1969) serão comemorados na nossa cidade em grande estilo.

No mesmo ano em que nasceu em Embu um dos principais movimentos artístico-culturais, reconhecido nacional e internacionalmente, acontecia o

maior festival de música do planeta, reunindo cerca de meio milhão de pessoas em Bethel (NY). O evento, realizado em meio à guerra do Vietnã e de movimentos de protestos, também foi assimilado por nossos artistas e artesãos que lutavam pela consolidação de sua arte. Pela importância do

fato, o governo municipal, em parceria com o restaurante O Garimpo e a revista Poeira Zine, quer unir mais essa marca à história da cidade.

O Hippie Fest Embu das Artes será comandado por Kid Vinil e vai reviver o clima dos festivais hippies de rock ao ar livre, celebrando a paz e o amor, grandes símbolos no final da década de 60. Serão mais de oito horas de música de qualidade com Hi-Five (Creedence), Krucis (Ravi Shankar), Banda

Kaduna (Santana), Danny Vicent e banda (Johnny Winter e Ten Years After) e Woodstock Band (The Band, Janis Joplin, The Who, Jimi Hendrix etc).

O encerramento ficará por conta do grupo 14 BIS. Entre nesse clima e participe! A entrada é franca.

Serviço: Hippie Fest Embu das Artes Dia 22 de agosto, a partir das 14 h

oras Parque do Lago Francisco Rizzo Rua Alberto Giosa, 300, Centro Mais informações: 4785-3564 / 4785-3563

Fonte: Prefeitura de Embu das Artes

O doce mel que escorre da cidadania

Posted in Uncategorized on agosto 7, 2009 by karolnews
Existem coisas que simplesmente têm de ser. Gina Prince-Bythewood que o diga. Contactada para dirigir a adaptação do romance A Vida Secreta das Abelhas, de Sue Monk Kidd, ela não apenas não leu o livro nem o roteiro como ficou quase três anos empurrando o projeto. Quando os produtores desistiram dela e anunciaram que estavam fazendo o filme com outro diretor, Gina finalmente se sentiu tentada a ler o livro. Foi uma revelação. “Tudo o que eu queria dizer sobre mim, nem falo do mundo, estava no livro. Bateu-me o pânico de ter perdido a oportunidade de minha vida. Felizmente, consegui retomar o projeto”, ela conta numa entrevista por telefone. A Vida Secreta das Abelhas estreia hoje nos cinemas brasileiros. O livro de Sue Monk Kidd também acaba de chegar às livrarias. Poderá ser uma dupla descoberta. Leia o livro e veja o filme (e vice-versa).

Trailer de A Vida Secreta das Abelhas

É a história dessa menina – branca – que mata a própria mãe e leva uma vida miserável com o pai. As circunstâncias da morte foram as mais inesperadas. A mãe havia se separado do pai. Voltou, mas já estava com a mala pronta para partir de novo. Houve uma briga, a filha, ainda menina, disparou acidentalmente na mãe e o pai lhe fez crer que ela estava fugindo dos dois. Como uma menina consegue crescer com este duplo peso, esta dupla tragédia na consciência – a de ser a assassina da mãe que a estava abandonando? O filme mostra a acolhida que ela recebe numa casa habitada por negras. Ela não confessa sua origem a essas irmãs que, no princípio, se dividem entre recebê-la ou não. O filme lembra um pouco Tomates Verdes Fritos, que foi um grande sucesso independente por volta de 1990. “Conheço este filme, mas nunca pensei nele nem achei que fosse uma referência. Agora que você está falando, percebo que tem pontos em contato. A história geracional, a afirmação das mulheres num universo masculino, o próprio racismo. Mas aqui a questão racial é muito mais forte, embora minha aproximação com o texto de Sue tenha sido sempre no sentido de fazer com que essa história não fosse só sobre racismo.”

Gina é adotada. Afro-americana, foi adotada por uma mãe de origem salvadorenha e um pai branco. No seio dessa família, não é difícil compreender por que a questão da identidade tenha sido sempre tão forte para ela. Houve um momento que Gina quis procurar sua mãe biológica. Sua identificação com o livro de Sue Monk Kidd vem muito daí. O repórter reclama de um ponto de vista. O filme adota o ponto de vista feminino. Como homem, ele não pode deixar de se identificar com o pai – esse pai miserável que amou a mulher e foi por ela abandonado, transferindo para a filha a carga da rejeição e a responsabilidade pela morte – pelo assassinato que, no fundo, num determinado momento, ele queria cometer. “Entendo o que você quer me dizer, mas, sinceramente, acho que o pai era um personagem muito mais negativo. Tentei relativizar sua posição o máximo possível. Até pelo que sofri na minha vida, e Sue sofreu, creio que um filme coral, dando voz a todos, é o caminho mais honesto.”

A Vida Secreta das Abelhas mostra o racismo nesta cidade sulista. O garoto negro, surpreendido com a jovem branca no cinema, é sequestrado. “Cresci ouvindo essas histórias de brutalidade. A integração racial foi um processo muito difícil nos EUA, que o próprio cinema se encarregou de documentar.” Como é ver seu filme nos cinemas justamente no momento em que um negro está instalado na presidência dos EUA? “Não digo que seja mais fácil recuperar essas histórias hoje em dia, embora seja, claro. Mas eu acho que o fato de Barack Obama estar hoje na presidência reforça uma ideia forte de A Vida Secreta das Abelhas, a cidadania. O filme pode falar de muita coisa. Linguagem, sentimentos, família, identidade, responsabilidade, mas a questão da cidadania sempre me norteou. Acredito que só ela poderá criar um mundo melhor.”

Foi difícil conseguir a adesão de atores como Queen Latifah, Dakota Fanning, Jennifer Hudson e Alicia Keyes? “Esse filme deve muito a elas. É delas, tanto quanto meu ou de Sue. Vou lhe dizer uma coisa. Ninguém fez A Vida Secreta das Abelhas para ganhar dinheiro. Queen, como uma verdadeira rainha, abriu mão de projetos mais rentáveis e trabalhou pelo mínimo somente para viabilizar a produção. Foi um filme feito com amor, por gente que acreditava no projeto. Isso aumentou meu empenho. Não podia errar e comprometer tanta dedicação.”

Um dos aspectos mais belos do filme refere-se ao muro que a personagem vivida por Sophie Okonedo (May Boatwright) constrói no jardim da casa. Ali ela expressa toda a sua dor pela injustiça do mundo. “O muro está no livro e, claro, não podia faltar no filme. É fácil pensar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. É o nosso muro das lamentações. Mas o tom do filme não é de lamento nem de fatalidade. Apesar de tudo, de toda a dor, há um arco dramático, uma evolução. Não creio que o cinema deva passar necessariamente uma mensagem, mas espero que cada um veja em A Vida Secreta das Abelhas o registro de um crescimento. Nada mais oportuno, na América e no mundo atuais.”

Serviço
A Vida Secreta das Abelhas (The Secret Life of Bees, EUA/2008, 114 min.) – Drama. Dir. Gina Prince-Bythewood. Livre. Cotação: Bom

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O menino que não desistiu do sonho

Posted in Uncategorized on agosto 7, 2009 by karolnews
É no mínimo curioso que cheguem aos cinemas dois filmes de diferentes temas e nacionalidades, mas que compartilham a mesma dificuldade de origem. Ambos demoraram muito tempo para ser feitos, o brasileiro O Contador de Histórias, de Luiz Villaça, e o italiano Almoço em Agosto, de Gianni Di Gregorio (leia entrevista na página seguinte). Foram cerca de sete anos para trazer ao cinema a história de Roberto Carlos Ramos. O próprio diretor Villaça conta como tudo começou: “Estava lendo para o meu filho Nino, antes de dormir. Uma história infantil, ele dormiu e eu continuei lendo até descobrir, no fim, que era a história do contador de histórias. Contei para a Denise (a atriz Denise Fraga, mulher do diretor e produtora do filme que estreia hoje). Disse que dava filme. Contactamos o Roberto Carlos e ele disse que estava voltando de um encontro de contadores de histórias e que um norte-americano tinha dito exatamente isso. Que a história dele dava um filme. Só não imaginávamos que demoraria tanto para ficar pronto.”

O motivo é que, apesar de todo o empenho, Villaça e Denise não encontravam parceiros. Ninguém parecia interessado na história de Roberto Carlos Ramos. No fim de 2005, eles estavam a ponto de desistir do projeto quando as coisas começaram a mudar. O cinema brasileiro conta muitas histórias de excluídos que optam pela via da violência. Você sabe de que filmes estamos falando, mas não custa enumerá-los – Cidade de Deus, Tropa de Elite, Ônibus 174. Todos eles percorrem a mesma via. O garoto desassistido pega em armas, iniciando sua trajetória na violência, matando até ser morto. A história de Roberto Carlos Ramos introduz uma quebra nessa sequência. Entregue pela mãe à Febem, o garoto mineiro poderia ter seguido o velho caminho, mas ele encontrou um anjo, a francesa Margherit Duvas – quase homônima da escritora e cineasta -, que veio ao País pesquisar a realidade dos garotos de rua e terminou tomando Roberto Carlos sob sua proteção. Deu-lhe o que ele não tivera, e a maioria dos garotos de rua também não – uma oportunidade.

Há um momento decisivo do filme, quando Margherit está voltando para a Europa e visita sua amiga na Febem. Ela se chama Pérola e é interpretada por Malu Galli. É certamente alguém bem-intencionada, mas Pérola faz seu discurso de que gostaria de atender cada caso na Febem com a atenção que Margherit deu a Roberto Carlos. Só que ela tem centenas, milhares de garotos. Margherit elegeu um. Parece fácil. As duas conversam e, de repente, silenciam. Seguem fumando, uma frente à outra. Face ao que o próprio cinema brasileiro tem mostrado, um filme como O Contador de Histórias assemelha-se a uma utopia. Mas a história é real. Luiz Villaça conta o que lhe interessou em Roberto Carlos. “Foi justamente a forma como ele passou a usar a fantasia para transformar e conviver com uma realidade muito dura. A fantasia permitiu-lhe lidar com suas frustrações.”

Talvez exista um lado Peixe Grande, nessa história de um narrador que fantasia as próprias histórias, mas Luiz Villaça não tomou o filme de Tim Burton com Ewan McGregor como referência. Não lhe interessava e ele nem acha que Peixe Grande seja um Tim Burton muito bom, como Edward Mãos de Tesoura e Ed Wood. O filme centra-se na relação de Roberto Carlos e Margherit, interpretada por Maria de Medeiros, porque ela viabilizou a transformação do garoto. Roberto Carlos é interpretado por três atores – Marco Antonio Ribeiro (aos 6 anos), Paulo Henrique Mendes (aos 13) e Cleiton dos Santos da Silva (aos 20). Foram preparados por Laís Correa, mas Villaça trabalhou intimamente com cada um. Como ele diz, “o filme é resultado da minha paixão pelo cinema, mas com os pés na realidade”. Os garotos lhe permitiram construir essa urgência. O Contador de Histórias é um filme fácil de criticar. Parece ingênuo, mas é de uma ingenuidade intencional e assumida.

Villaça mostrou o filme para garotos de comunidades carentes de São Paulo e Rio. Foi uma experiência muito interessante. Os garotos se identificam com Roberto Carlos. E Villaça se identifica com Margherit, a agente da transformação. “Sou um contador de histórias e, com este filme, quero acreditar que estou fazendo como a Margherit. Os críticos dizem que a função do cinema, da arte, não é veicular uma mensagem. Mas eu gostaria de estar dizendo, com O Contador de Histórias, a todos os meninos e meninas carentes do Brasil que não desistam do seu sonho. Pode ser que o sonhador seja eu, que a sonhadora seja a Denise (Fraga). Estamos criando nossos filhos para que sejam bons cidadãos. Ser um bom cidadão não significa só pensar em si e nos seus. Foi o que ficou da história de Roberto Carlos Ramos. Por isso, quis contá-la.”

Fonte: Estadão