‘Trabalho, para mim, é alimento’

Pronta para fazer Som & Fúria, Andréa Beltrão rejeita fama de workaholic, respeita laboratório mas valoriza a experiência.

Ela não para. Em cartaz no Teatro Raul Cortez, com a peça As Centenárias, e vivendo na TV a personagem Marilda, em A Grande Família, Andréa Beltrão deu de aparecer com outro trabalho: a partir de amanhã, estreia na série Som & Fúria – também na Globo – sob o comando de Fernando Meirelles. E não é só: tem na agenda, para outubro, a estreia de Salve Geral, o novo filme de Sergio Resende sobre os ataques do PCC.

Mas nada tira o fôlego desta carioca espirituosa que diz, com leveza, que não é workaholic e que não tem medo da morte – “Vou enganá-la até ela cair dura na minha frente…” Por trás desse ritmo intenso está uma mulher de riso afável , capaz de cair em lágrimas, com fez em recente encontro com Roberto Carlos: “Chorei que me acabei”. A seguir, trechos da entrevista.

Como surgiu o convite para a série Som & Fúria? Ele veio do Guel (Arraes) e do Fernando Meirelles. Com o Guel eu tenho uma história de 25 anos de trabalho. E o Fernando é um artista que eu admiro muito, mas com quem nunca tinha trabalhado.

E como foi trabalhar com ele ? Foi um encontro artístico interessante: nós gostamos de trabalhar da mesma maneira. De um jeito em que se leva em conta, em cena, tudo o que está por perto. Isso é um jogo que vem de se fazer muita televisão, dramaturgia, publicidade. E o Fernando sabe reunir todas essas coisas, é sensacional.

Como foi o encontro da Marilda, sua personagem em A Grande Família, com Roberto Carlos? Ai, eu chorei pra caramba (risos). Quando me falaram “o rei tá ali”, chorei que me acabei. Nem tenho vergonha de dizer, porque ele merece. É um dos maiores intérpretes do mundo. Acho a história dele um encanto, uma vida de “Cinderelo”. E a atitude dele como artista me comove. Porque tem uma nobreza de sentimento emocionante.

Além da série você tem pela frente a estreia do filme Salve Geral, de Sergio Resende. Como foi esse trabalho ? Eu faço uma professora de piano, que é bem diferente da Verônica – filme homônimo de Maurício Farias . É um personagem lindo. E um assunto quente, polêmico: os atentados do PCC em São Paulo. A Lúcia é uma personagem muito introspectiva que se vê jogada no meio de uma tragédia – seu filho vai para o presídio. Durante as filmagens, brinquei com o Sérgio que eu tinha a sensação de estar filmando com um diretor clássico, tipo um John Houston. Porque ele exercia seu oficio com serenidade, Quero muito trabalhar com ele de novo.

A violência é um tema recorrente no cinema brasileiro. O filme é violento? Não é um filme que explore a violência, mas o assunto é violento. Diria que o considero elegante, pujante e emocionante.

E você tem vontade de dirigir ? Cinema, não. Se eu fosse dirigir, gostaria de começar com teatro. Sinto uma coceirinha de vontade. E fico intrigada com o processo: o pensar, ver e amadurecer. Mas no cinema existe um aspecto técnico, de comandar uma equipe, que eu não domino.

E escrever? Sim. Eu gosto de escrever, mas sou muito crítica. Só escrevo para mim mesma.

Você também é crítica assim sobre suas atuações ? Sou. Mas não do tipo que critica demais e se paralisa. Eu me desafio profissionalmente. Interpretar é um jogo como o futebol. Tem que saber os fundamentos, as técnicas básicas, para dar uma dimensão diferente a uma personagem.

Marco Nanini disse que você é uma atriz que trabalha com método. Fale um pouco sobre seu método. Já me disseram que eu era intuitiva, metódica. Eu aceito tudo (risos). Mas o Nanini sabe o que fala, eu trabalho com ele há quase 9 anos. E ele me vê trabalhar – eu decupo, estudo, escrevo, pesquiso muito. Mas tudo isso sempre dentro da minha imaginação. Acredito no valor do laboratório, é importante você entrar em contato com um universo que não conhece. Mas eu prefiro puxar pelas minhas experiências, o que me emocionou. Acho que esse é o meu método.

Das três artes, cinema, teatro e TV, qual lhe dá o maior barato? Sou obrigada a confessar: Marieta e eu compramos um teatro no RJ, o Teatro Poeira, que é a nossa pérola. E o gesto é proporcional à minha paixão por ele. Mantemos uma programação bacana por lá. Agora por exemplo, entra em cartaz Moby Dick, com direção de Aderbal Freire Filho.

O que acha da polêmica sobre meia-entrada no teatro? Eu não fico dividida. As contas não são pagas como meias contas, nem os profissionais são contratados por meio salário. É uma relação que deve ser, portanto, regulamentada. Infelizmente recai sobre a classe (teatral) um véu de antipatia quando falamos desse assunto. É uma pena, porque se trata da sobrevivência do teatro. É claro que é preciso que o público jovem vá ao teatro. Mas a meia entrada não se restringe aos estudantes, várias categorias se beneficiam. Então não temos um borderô real, mas pela metade. Isso dificulta o pagamento das contas, e principalmente a carreira dos espetáculos. E cria uma perversão segundo a qual o patrocínio deve cada vez mais suprir os gastos da temporada. Algumas peças com casa lotada acabam saindo de cartaz porque sua receita, uma meia receita, não cobre a folha de pagamento.

E como essa questão pode ser regulamentada? Destinando uma parte da casa para a meia-entrada, não a casa inteira. E que cada produção possa definir seu percentual de meia entrada, respeitando sempre o percentual mínimo estabelecido.

Você se considera workaholic? Não. Porque o trabalho é meu alimento em todos os sentidos. Acontece, às vezes, de um trabalho encaixar no outro e aí, é claro, fica difícil. Mas eu não sofro por trabalhar muito: eu trabalho muito porque tenho prazer nisso. Em As Centenárias, por exemplo, temos que tomar aula de Pilates, senão não aguentamos andar depois. É como se fizéssemos um espetáculo de circo todo final de semana. Mas nós não somos atletas de circo e não temos mais 18 anos, cada uma tem 107 (risos).

E qual é o seu grande medo? Eu diria que tenho medo da morte, mas depois de fazer As Centenárias nem tenho mais. Vou enganá-la até ela cair dura na minha frente (risos). Eu brinco com os meus filhos dizendo que eu tomo um “antimorrente”. Um remédio que eu faço em casa, na madrugada, escondida, para ninguém morrer (risos). Medo mesmo, não sinto por mim, mas pelas pessoas que eu amo.

Por Marília Neustein

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: