O valor da dignidade
Quem precisa de atendimento médico rápido e de qualidade, tem que travar uma luta diária e cansativa contra o descaso de médicos e atendentes do sistema público de saúde.
Em uma tarde no Hopsital das Clínicas de São Paulo (considerado referência para toda a América Latina), à procura de atendimento emergencial, a cena que se vê é uma das mais tristes e revoltantes: dezenas de pessoas (jovens, crianças e velhos… muitos deles), aguardando pacientemente o número que, com sorte, apareceria em um monitor confuso e de difícil visualização.
O cenário é alarmante. Pessoas sentadas em bancos desconfortáveis, velhos e deficientes levados em cadeiras de rodas quebradas, desordem na distribuição de senhas, aguardando por horas um atendimento que não vêm. Além, claro, de suportar o desrespeito e a rispidez de seguranças e atendentes do Prédio dos Ambulatórios.
Em quase duas horas de espera, alguns pacientes sequer tinham feito a ficha de inscrição, parte do processo de triagem que levaria, enfim, ao atendimento.
Pacientes desesperados buscavam por orientação meio a reclamações sobre a demora, ao que um dos seguranças respondia de forma impaciente que, a única coisa a fazer era aguardar.
Em outro hospital, não muito distante do HC, o cenário é outro. Recepcionistas
educadas e bem treinadas atendem com agilidade aos que passam pela entrada de emergência do Sta.Catarina. Em outra sala, confortável e bem decorada, os pacientes aguardam alguns minutos para o primeiro atendimento. Após uma breve classificação, cada um é encaminhado para um determinado setor. Um retrato totalmente diferente, outro mundo.
Cada pessoa que (muitas vezes) atravessa a cidade em busca de tratamento está em busca não só de remédio e conforto, mas sim de dignidade. A dignidade, e nada mais, que consiste em ser atendido no ato e por pessoas que tenham o mínimo de preparo para lidar com: pessoas.
Gente, que busca o mínimo de alento aos dramas particulares que transbordam pelos cantos de hospitais decadentes e sem estrutura.
Ter um sistema de saúde falho que desrespeita um direito básico do ser humano garanti
do inclusive pela Constituição, parece já ter se tornado algo comum entre os brasileiros. A saúde no Brasil está podre e cheira mal, sendo assim, ninguém quer ver.
O bem-estar do brasileiro está condicionado ao valor do seu plano de saúde que, com ou sem greve, abre vagas instantâneas e sorrisos simpáticos das atendentes. Enquanto a grande massa fica à mercê do sistema corrupto e ineficaz.
Pra se ter dignidade, tem que pagar. E o valor da conta é caro, muito caro.

